Antes de embarcar para Portugal, ouvi mais de uma vez a mesma dúvida de amigos e familiares “Portalegre não ficava no Rio Grande do Sul?”. Era justamente para essa cidade do Alto Alentejo, em Portugal, que eu iria passar quase seis meses durante um intercâmbio, em 2019.
A cerca de 2h40 de Lisboa de carro, Portalegre fica próxima à fronteira com a Espanha, tem cerca de 14 mil habitantes e é a capital do distrito de mesmo nome, que também reúne destinos como Elvas, Marvão e Castelo de Vide. O ritmo é tranquilo e, naquele período, uma das coisas que eu mais gostava de fazer era simplesmente sair andando pelas ruas e foi em uma dessas caminhadas, sem ter colocado o endereço em nenhum roteiro, que encontrei o o Museu de Tapeçaria de Portalegre – Guy Fino e decidi entrar.

Fachada Museu de Tapeçaria de Portalegre – Guy Fino/ Foto: Maria Clara Rezende
Entre salas, fios e descobertas
Logo na entrada, uma pessoa do museu explicou um pouco sobre o que eu encontraria nas salas seguintes. Conforme fui avançando, apareceram tapeçarias de grandes dimensões, desenhos, fios, teares e materiais usados na produção, e ficou mais fácil entender como trabalhos criados originalmente por artistas ganhavam outra forma através do tecido. De longe, algumas peças podiam até ser confundidas com pinturas, de perto, os fios, as cores e a quantidade de detalhes mostravam o trabalho envolvido em cada uma delas.

Uma das salas do Museu da Tapeçaria de Portalegre/ Foto: Maria Clara Rezende
Também conheci a origem daquela técnica. A Tapeçaria de Portalegre começou a ser desenvolvida na década de 1940 e ganhou características que a diferenciam de outras tradições europeias. Em 1946, Guy Fino, industrial ligado à produção de tecidos de lã, e Manuel Celestino Peixeiro criaram a Tapetes de Portalegre, inicialmente voltada para a produção de tapetes. Com a concorrência, o negócio precisou procurar outros caminhos e foi então que Manuel do Carmo Peixeiro, pai de Manuel Celestino e conhecedor da área têxtil, apresentou um ponto que havia desenvolvido anos antes, durante seus estudos em Roubaix, na França. A partir dele, começou a tomar forma o que ficaria conhecido como ponto de Portalegre.
Como uma obra chega ao tear
A primeira tapeçaria produzida com a nova técnica foi Diana, a partir de um cartão de João Tavares, pintor e professor do Liceu de Portalegre. Pouco depois, a aproximação com pintores ampliou as possibilidades da manufatura e estabeleceu uma característica que permanece central até hoje: o trabalho parte de uma obra criada por um artista, mas precisa ser interpretado para que cores, formas, contornos e detalhes possam ser construídos em outro suporte.
É nessa etapa que o trabalho por trás de cada peça começa a ficar mais claro. Antes de chegar ao tear, o original do artista é ampliado em um papel quadriculado, que orienta a execução da tapeçaria. O desenho precisa ser adaptado ponto a ponto, levando em conta contornos, formas e variações de cor.

Desenho ampliado usado na preparação das tapeçarias/ Foto: Maria Clara Rezende
A Manufactura de Tapeçarias de Portalegre trabalha com milhares de tonalidades de lã, que podem ser combinadas para chegar às nuances previstas na obra original. Depois dessa preparação, o trabalho segue para os teares verticais, onde as peças são feitas manualmente, pelo avesso e de baixo para cima.
A densidade pode chegar a 2.500 pontos por decímetro quadrado, o equivalente a cerca de 250 mil pontos em um metro quadrado. Dependendo do tamanho e da complexidade da obra, uma tapeçaria pode levar meses para ficar pronta.

Teares e fios usados na produção das Tapeçarias de Portalegre ajudam a mostrar parte do processo realizado manualmente/ Foto: Maria Clara Rezende
No museu, os cartões e desenhos expostos próximos às tapeçarias ajudam a entender melhor essa passagem. Existe uma obra original como ponto de partida, mas ela precisa ser adaptada para outra linguagem, em que os fios assumem o lugar da tinta e cada escolha de cor interfere no resultado final.

Tapeçaria e estudos expostos no Museu da Tapeçaria de Portalegre – Guy Fino/ Foto: Maria Clara Rezende
Maria Keil e a arte em tapeçaria
Durante a minha visita, uma das exposições era dedicada a Maria Keil, com o título Tapeçaria no Feminino. Entre as fotografias que guardei daquele dia está Pescador da Barca Bela, de 1949, inspirado no poema homônimo de Almeida Garrett e um dos primeiros trabalhos da artista ligados à manufatura.
Maria Keil foi a primeira mulher a colaborar com a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre. Ao longo da carreira, seu trabalho também passou pelo desenho, pela ilustração e, principalmente, pela azulejaria, deixando obras em diferentes espaços públicos portugueses.

Pescador da Barca Bela, de Maria Keil, 1949/ Foto: Maria Clara Rezende
A ligação com os artistas ganhou força ao longo das décadas seguintes. Júlio Pomar, Almada Negreiros, Maria Helena Vieira da Silva, Lima de Freitas e José de Guimarães estão entre os nomes que tiveram trabalhos levados aos teares de Portalegre.
A projeção internacional também começou cedo. As Tapeçarias de Portalegre estiveram presentes na Exposição Universal de Bruxelas, em 1958, e participaram, nos anos seguintes, de diferentes edições da Bienal Internacional de Tapeçaria de Lausanne, na Suíça. Em 1960, começou a colaboração com Vieira da Silva, a partir do cartão de Mouraria, seguida por outras obras da artista.
Décadas mais tarde, a técnica continuou ligada à produção contemporânea. Em 2012, o brasileiro Vik Muniz participou da exposição A Arte da Tapeçaria – Tradição e Modernidade, em São Paulo, com uma obra fotográfica criada a partir de uma pequena tapeçaria produzida pelas tecedeiras de Portalegre. No mesmo ano, a manufatura executou uma tapeçaria a partir de uma obra de Joana Vasconcelos para uma exposição no Palácio de Versalhes, na França. A peça tinha cerca de 13 metros quadrados e levou meses para ser concluída.
Em 2013, o trabalho ligado a Vik Muniz também integrou uma mostra no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.

Obra de Joana Vasconcelos no Museu da Tapeçaria de Portalegre/ Foto: Maria Clara Rezende
Uma técnica que continua sendo produzida
Para quem passa por Portalegre, o museu é hoje uma forma de conhecer uma produção que nasceu na cidade e continua ligada à arte atual. Não é uma visita dedicada apenas ao passado, os teares seguem recebendo novos trabalhos e aproximando a técnica de outras gerações de artistas.
Essa continuidade aparece também na primeira edição do Prémio Tapeçaria de Portalegre – A Tapeçaria de Portalegre como Expressão de Arte Contemporânea, realizada entre 2024 e 2025, que selecionou 20 artistas para desenvolver trabalhos em pintura e desenho com possibilidade de serem posteriormente transformados em tapeçarias. A exposição coletiva com as obras foi inaugurada no museu em maio de 2025. Ao mesmo tempo, o Ponto de Portalegre busca ampliar seu reconhecimento como patrimônio e aguarda uma resposta sobre sua inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial de Portugal.

Obras de diferentes artistas no Museu da Tapeçaria de Portalegre/ Foto: Maria Clara Rezende
Hoje, ao rever as fotografias daquela visita, o museu continua sendo uma das lembranças mais particulares dos meses que passei na cidade. Para quem chega ao Alto Alentejo, ele também é um bom motivo para incluir Portalegre no caminho e conhecer uma produção artística que ainda aparece pouco nos roteiros mais conhecidos de Portugal.

Vista de Portalegre, no Alto Alentejo/ Foto: Maria Clara Rezende










