Quando se pensa em uma viagem pela Polônia, cidades como Varsóvia e Cracóvia costumam ocupar boa parte dos roteiros. No sudeste do país, Rzeszów segue por um caminho diferente. Capital da região da Podcarpácia, a cidade tem cerca de 198 mil habitantes e funciona como um dos principais centros urbanos dessa parte do território polonês.
É bem no centro que está uma de suas atrações mais particulares. Sob o Rynek, a praça principal cercada por edifícios históricos, antigas adegas e corredores formam hoje a Rzeszowskie Piwnice, uma rota subterrânea com 396 metros de extensão. A origem desses espaços remonta à Idade Média e acompanha o crescimento comercial da cidade ao longo de vários séculos.
O que o Rynek esconde
Rzeszów recebeu direitos urbanos em 1354 e cresceu em uma região atravessada por rotas comerciais. À medida que mercadorias circulavam pela cidade, os espaços abaixo das casas da praça e das ruas próximas passaram a ser utilizados como depósitos e as chamadas “lojas de terra”, onde comerciantes armazenavam produtos protegidos de incêndios, roubos e das mudanças de temperatura.
Escavadas inicialmente no solo, essas estruturas ganharam reforços de madeira, pedra e tijolos com o passar do tempo. Algumas marcas dos períodos mais antigos ainda podem ser vistas no percurso, como abóbadas de tijolos, um portal, uma janela de pedra e partes do piso original. São elementos que sobreviveram às transformações da cidade e hoje dividem espaço com construções realizadas em épocas posteriores.

Entrada da Rzeszowskie Piwnice, sob o Rynek/ Foto: Lowdown – Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
O uso desses ambientes também mudou de acordo com o que acontecia na superfície. Além de armazenar mercadorias, eles serviram de abrigo durante períodos de invasões e outros momentos de perigo. Na Segunda Guerra Mundial, algumas adegas foram utilizadas como esconderijo por judeus que escapavam do gueto de Rzeszów.
A redescoberta dos subterrâneos
Com o passar do tempo, alguns espaços foram aterrados ou fechados e deixaram de fazer parte da rotina da cidade. A atenção voltou para o que havia sob a praça nos anos 1960, quando problemas de afundamento do solo começaram a ameaçar as fundações dos edifícios da região. A partir daí, diferentes etapas de conservação e trabalhos arqueológicos passaram a recuperar as antigas estruturas.

A exposição recria parte da antiga atividade comercial dos subterrâneos de Rzeszów/ Foto: Lowdown – Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
O processo durou décadas e foi concluído em 2000. No ano seguinte, em 19 de abril de 2001, os primeiros 213 metros da rota foram abertos aos visitantes, reunindo 34 câmaras e corredores. Em 2007, o percurso foi ampliado para os atuais 396 metros e, durante os trabalhos, foram encontrados vestígios de construções dos séculos XVI ao XVIII e sinais do grande incêndio que atingiu Rzeszów em 1842.
Outra transformação começou em 2017, quando o local passou por uma modernização voltada a aproximar a estrutura histórica de novos recursos expositivos. A atração reabriu em janeiro de 2022 como uma instituição cultural interativa, incorporando filmes, sons, iluminação e estações multimídia ao percurso pelos antigos ambientes.

Recursos multimídia passaram a integrar o percurso após a modernização/ Foto: Rzeszowskie Piwnice Divulgação
Entre corredores e antigas adegas
Hoje, a experiência combina os próprios corredores históricos com diferentes formas de contar o passado local. Ao longo da visita aparecem histórias de antigos proprietários da cidade, acontecimentos que marcaram Rzeszów, lendas e referências à vida de quem utilizou aqueles espaços muito antes de eles se tornarem uma atração.
O percurso também tem características que deixam clara sua origem subterrânea. São mais de 150 degraus, em pontos situados entre 2,5 e dez metros abaixo da superfície, e a passagem mais estreita chega a apenas 70 centímetros. A temperatura fica em torno de 18°C, e quem não consegue fazer o trajeto tradicional pode acessar uma opção de visita virtual oferecida pela instituição.

O percurso subterrâneo chega a dez metros abaixo do nível da praça/ Foto: Rzeszowskie Piwnice Divulgação
Talvez a parte mais curiosa venha justamente depois, ao retornar à superfície. O Rynek volta a ser uma praça movimentada, cercada por edifícios e pela rotina do centro, mas saber o que existe abaixo muda a forma de observar aquele espaço. Os mesmos quarteirões que hoje concentram circulação e comércio guardaram, em outros períodos, estoques, abrigos e passagens que permaneceram escondidos durante boa parte da história recente da cidade.
Uma Polônia menos óbvia
A localização da Rzeszowskie Piwnice facilita a continuação do passeio. Ao sair da atração, o visitante já está no centro histórico, com o Rynek como ponto de partida para seguir pelas ruas próximas. A própria praça é marcada pelo edifício da prefeitura, construído originalmente no século XVI e remodelado no final do XIX, além das fachadas que cercam uma área que continua sendo ponto de encontro na cidade.
A poucos minutos dali, a paisagem muda novamente. O Castelo Lubomirski, cercado por quatro bastiões, remete ao período em que famílias aristocráticas tiveram papel importante na formação de Rzeszów. Nas proximidades ficam também o antigo palácio de verão dos Lubomirski e a avenida Pod Kasztanami, conhecida pelas vilas em estilos ligados à Art Nouveau, com fachadas bem diferentes das encontradas ao redor da praça.

Castelo Lubomirski, em Rzeszów/ Foto: Wojkac – Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0 PL).
Outro endereço foge completamente do que normalmente se espera encontrar em um roteiro histórico, o Muzeum Dobranocek, dedicado aos desenhos e animações infantis exibidos tradicionalmente à noite na televisão polonesa. O acervo reúne personagens, brinquedos e objetos ligados a essa parte da cultura popular do país, trazendo uma perspectiva bem diferente daquela encontrada alguns metros abaixo do Rynek.










