Para quem cresceu no Brasil ouvindo nomes de cidades japonesas sem nunca ter estado nelas, uma viagem ao Japão pode começar muito antes do embarque. Às vezes, começa em uma fotografia antiga, em um documento guardado pela família ou em um sobrenome que atravessou gerações. Até que surge a pergunta: de onde, exatamente, veio a família?
Entre os quase dois milhões de descendentes de japoneses que vivem no Brasil, há quem viaje ao país não apenas para conhecer seus destinos mais famosos, mas para encontrar a província, a cidade, o templo ou até o endereço ligado à trajetória de seus antepassados.
É o chamado turismo de raízes, no qual a história familiar ajuda a desenhar o roteiro. Tóquio, Kyoto e Osaka podem continuar no itinerário, mas dividem espaço com a região de onde partiu um avô ou bisavô antes de atravessar o oceano. Nesse tipo de viagem, conhecer o Japão também significa tentar localizar, geograficamente, uma parte da própria história.
Em 2026, quando o Brasil completa 118 anos da imigração japonesa, essa relação entre os dois países também pode ser contada por meio de seus lugares. O marco oficial aconteceu em 18 de junho de 1908, quando o Kasato Maru chegou ao porto de Santos com 781 imigrantes japoneses, após uma viagem de mais de 50 dias iniciada em Kobe.
Os passageiros desembarcaram em Santos e seguiram para São Paulo, onde muitos foram encaminhados para trabalhar em fazendas de café no interior do estado. A viagem fazia parte de um movimento migratório estimulado em um período no qual o Brasil buscava mão de obra para as lavouras e o Japão enfrentava transformações econômicas e sociais.
Entre os passageiros daquela primeira travessia, cerca de 40% vinham de Okinawa, proporção que ajuda a explicar a presença marcante da província na história da comunidade nipo-brasileira.
Okinawa: as raízes brasileiras encontram a antiga Ryukyu

Foto: Unsplash
Okinawa carrega uma história particular dentro do Japão. O arquipélago foi território do Reino de Ryukyu, que existiu por mais de quatro séculos antes de ser incorporado ao Japão em 1879. Durante esse período, manteve intensas relações comerciais e culturais com outras regiões da Ásia, especialmente com a China.
Essa trajetória deixou marcas que ainda distinguem a identidade okinawana. Uma delas está na música: o sanshin, instrumento tradicional de três cordas, permanece como um dos símbolos culturais do arquipélago.
A gastronomia também desenvolveu ingredientes e preparos próprios. Parte dessa identidade atravessou o oceano com os imigrantes e permaneceu viva no Brasil por meio de associações, festividades, receitas familiares e outras manifestações culturais.
Para descendentes de famílias okinawanas, visitar a província pode significar reconhecer no Japão costumes que, de alguma maneira, já faziam parte da vida no Brasil.
Kumamoto: uma paisagem ligada à história dos agricultores

Foto: Unsplash
Na ilha de Kyushu, Kumamoto aparece em outro capítulo da imigração japonesa. A província esteve entre as regiões de origem de agricultores que partiram para o Brasil nas primeiras décadas do século XX, período em que a emigração ganhou força diante das dificuldades econômicas enfrentadas por parte da população rural japonesa.
Hoje, quem chega à região encontra uma paisagem que combina patrimônio histórico e natureza. O Castelo de Kumamoto é um dos principais símbolos locais, enquanto áreas montanhosas, fontes termais e comunidades rurais revelam outras faces da província.
Em uma viagem de raízes, no entanto, o lugar mais importante do roteiro pode não aparecer em nenhum guia turístico. Pode ser uma pequena cidade, uma antiga propriedade ou simplesmente o município registrado na certidão de nascimento de alguém que deixou o Japão décadas atrás.
É justamente essa busca que transforma a maneira de percorrer o território.
Fukuoka: entre antigas rotas marítimas e sabores de Kyushu

Foto: Visit Fukuoka
Também em Kyushu, Fukuoka construiu parte de sua identidade a partir da proximidade com o continente asiático. Sua posição geográfica transformou a região, ao longo da história, em um importante ponto de circulação de pessoas, mercadorias e influências culturais.
Para quem visita a província atualmente, a gastronomia é uma das maneiras mais imediatas de conhecer essa identidade. O tonkotsu ramen, preparado com caldo à base de ossos de porco e macarrão fino, tornou-se uma de suas especialidades mais conhecidas.
A cidade de Kurume, em Fukuoka, é apontada pelo órgão oficial de turismo da província como o berço do prato. Sua origem remonta a 1937, quando a receita começou a ser servida em uma barraca de comida local.
Para descendentes cujas famílias partiram dessa região, sabores, nomes e costumes encontrados durante a viagem podem estabelecer conexões inesperadas com tradições preservadas do outro lado do mundo.
Quando documentos antigos começam a desenhar o roteiro

Foto: Japan Travel
Antes de comprar uma passagem, a viagem pode começar dentro de casa. Uma certidão de nascimento, um registro de imigração ou uma fotografia com uma anotação no verso podem fornecer as primeiras pistas sobre a origem da família.
A partir do nome de uma província ou município, é possível delimitar o território e construir um roteiro muito mais pessoal. Lugares que talvez passassem despercebidos em uma primeira viagem ao Japão ganham outro significado quando estão ligados à trajetória de alguém da família.
Esse movimento acontece em um momento de forte crescimento do turismo internacional no país. O Japão recebeu cerca de 42 milhões de visitantes estrangeiros em 2025 e estabeleceu a meta de alcançar 60 milhões até 2030. Entre os brasileiros, foram aproximadamente 110 mil visitantes em 2025.
Mas, para quem viaja em busca das próprias origens, os números contam apenas parte dessa história.
Há mais de um século, milhares de japoneses deixaram cidades e vilarejos do arquipélago para construir uma nova vida a milhares de quilômetros de distância. Hoje, filhos, netos e bisnetos podem percorrer o caminho no sentido contrário.
Não para repetir a viagem de quem partiu, mas para finalmente conhecer o lugar onde ela começou.










