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    Gisele Abrahão defende o impacto positivo como caminho para o turismo do futuro

    by Maria Clara Rezende - 18/08/2026

    Para Gisele Abrahão, falar de turismo nunca esteve restrito a promover destinos ou aumentar o fluxo de visitantes. Depois de mais de duas décadas trabalhando no setor e de experiências em mais de 70 países, a empresária passou a enxergar a atividade por uma perspectiva mais ampla, a capacidade de movimentar economias, preservar culturas, fortalecer comunidades e contribuir para a proteção dos lugares que despertam o desejo de viajar.

    Fundadora da GVA, Global Vision Access, empresa de marketing, comunicação e turismo, ela também está à frente do Bureau Mundo e da plataforma Impactos Positivos. Foi longe do Brasil que construiu parte importante da visão que hoje orienta esses projetos. Em conversa com a SOLA, relembrou momentos decisivos da carreira e explicou por que acredita que o futuro do turismo está diretamente ligado ao desenvolvimento de negócios capazes de conciliar crescimento econômico com benefícios sociais e ambientais.

    O poder da comunicação para mudar percepções

    Um dos capítulos mais importantes da trajetória de Gisele começou nos Estados Unidos, onde ela foi estudar e acabou envolvida na promoção turística da Jordânia para o mercado norte-americano. O trabalho teve início pouco depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, em um momento especialmente delicado para a imagem dos destinos do Oriente Médio.

    Durante quase uma década, em meio à instabilidade geopolítica da região, o desafio era mostrar que um destino não poderia ser reduzido às notícias negativas que chegavam diariamente ao público. Foi nesse período que Gisele compreendeu de forma mais clara o alcance da comunicação no turismo.

    “Para cada negativa, a gente colocava uma positiva para fora. Para cada assunto ruim, a gente trazia um bom”, relembra. A estratégia ajudou a fortalecer a presença de visitantes norte-americanos na Jordânia e mostrou, na prática, como a comunicação pode interferir na percepção sobre um destino.

    Gisele Abrahão em Petra, na Jordânia. / Foto: Arquivo Pessoal

    Essa experiência também revelou a dimensão econômica do turismo. Restaurantes, transportes, famílias e pequenos negócios locais sentiam diretamente os efeitos da chegada ou da ausência de visitantes. Em um país com patrimônio histórico milenar, a relação entre turismo, comunicação e desenvolvimento ficou ainda mais evidente para a executiva.

    A comunicação voltaria a mostrar sua força em outro momento de sua trajetória. Em 2009, Gisele percorreu diferentes países da África e passou dois meses como voluntária em Uganda, trabalhando com uma comunidade profundamente afetada pela aids. Ao nos contar sobre essa fase, relembrou que continuou recebendo por anos mensagens de mulheres tocadas por sua história. Para ela, foi mais uma demonstração de como uma experiência compartilhada pode provocar identificação e deixar marcas muito tempo depois.

    De volta ao Brasil, criou a GVA e levou o trabalho de representação e comunicação para diferentes partes do mundo. Seychelles, Noruega, Barbados e Mônaco estão entre os destinos que passaram por sua trajetória profissional. Um interesse particular sempre esteve nos lugares ainda pouco conhecidos do público brasileiro, justamente pelo desafio de apresentar novos repertórios ao viajante.

    Seychelles, um dos destinos que fizeram parte da sua trajetória profissional. / Foto: Divulgação

    Quando viajar também significa preservar

    Ao longo dos anos trabalhando com diferentes destinos, Gisele passou a observar com mais atenção o que o turismo deixa nos lugares por onde passa. Para ela, a atividade vai muito além da chegada de visitantes e da movimentação econômica.

    “O turismo pode proteger, regenerar e preservar. Pode preservar nossas histórias, proteger nossas pessoas, nossa cultura e regenerar nosso planeta”, afirma.

    Gisele Abrahão atua há mais de duas décadas no mercado de turismo e comunicação/ Foto: Divulgação

    Essa importância também vem acompanhada de uma fragilidade que Gisele conhece de perto. Uma mudança na economia, um conflito, um desastre natural ou uma crise sanitária pode afetar rapidamente toda a cadeia do turismo.

    A pandemia deixou isso ainda mais evidente. Sem a possibilidade de viajar, o setor praticamente parou. A GVA conseguiu manter seus clientes e a equipe durante o período, mas aquele momento fez Gisele voltar a atenção para outras iniciativas que continuavam acontecendo no país.

    Ela começou a acompanhar negócios e empreendedores brasileiros que, mesmo em meio à crise, buscavam soluções para questões sociais e ambientais. Surgiu então a ideia de criar um espaço para reunir essas iniciativas e dar visibilidade ao trabalho que já estava sendo feito. Foi assim que nasceu a Impactos Positivos, com uma primeira edição simbólica em 2020.

    Uma plataforma criada para fazer conexões

    A partir de 2021, a Impactos Positivos passou a se estruturar como um ecossistema voltado aos negócios de impacto, reunindo iniciativas em diferentes estágios de desenvolvimento e conectando empreendedores a parceiros, investidores, empresas e outras oportunidades.

    A premiação se tornou uma das ferramentas desse ecossistema. Em 2026, foram 169 negócios inscritos, distribuídos em categorias que consideram diferentes momentos de maturidade das iniciativas. A plataforma também desenvolveu diagnósticos de impacto e escalabilidade, selo próprio e ferramentas para aproximar projetos de potenciais apoiadores.

    Na visão de Gisele, um bom projeto pode desaparecer não apenas pela falta de recursos financeiros, mas pela ausência das conexões certas. “Às vezes aquela solução morre por falta de conexão, por falta de exposição, por falta de engajamento”, diz.

    Encontro Impactos Positivos reúne participantes e parceiros do ecossistema de impacto.
    / Foto: Reprodução Instagram

    É justamente nesse ponto que sua experiência em comunicação volta a aparecer. A lógica aprendida anos antes promovendo destinos e compartilhando histórias passa agora a ser usada para dar visibilidade a soluções capazes de responder a problemas sociais e ambientais.

    O ecossistema não se limita às empresas que nasceram com um propósito de impacto. Grandes companhias, organizações, comunidades, aceleradoras e outras instituições também podem participar como dinamizadores, apoiando projetos ou desenvolvendo iniciativas próprias.

    Por que os negócios de impacto interessam ao turismo

    Embora a Impactos Positivos não tenha sido criada exclusivamente para o mercado de viagens, é justamente nesse ponto que a história volta ao setor no qual Gisele construiu sua carreira.

    Para ela, separar os negócios de impacto do futuro do turismo é cada vez menos possível. Projetos ligados à bioeconomia, energia renovável, mobilidade, educação, preservação ambiental ou fortalecimento de comunidades podem não vender uma viagem, mas ajudam a determinar como os destinos estarão preparados para recebê-la nos próximos anos.

    “Eles preservam as diferenças, as culturas e o meio ambiente. Negócios de impacto são essenciais para o turismo do futuro”, afirma.

    Há também iniciativas diretamente ligadas à hospitalidade, como propriedades inseridas em áreas preservadas ou projetos que estabelecem uma relação econômica e cultural com comunidades locais. Mas o raciocínio vai além desses exemplos. Se o turismo depende de territórios preservados, culturas vivas, pessoas capacitadas e infraestrutura capaz de acompanhar as transformações do setor, negócios que atuam nessas frentes passam a integrar, mesmo indiretamente, sua cadeia.

    É uma discussão que desloca o conceito de sustentabilidade do campo do discurso para decisões práticas. Para Gisele, não se trata de exigir que todas as empresas tenham impacto positivo em cada aspecto de sua operação, mas de criar maneiras reais de participar dessa transformação.

    Gisele Abrahão defende um turismo capaz de preservar territórios, culturas e comunidades/ Foto: Divulgação

    Empresas tradicionais podem investir, contratar fornecedores de impacto, apoiar projetos ou financiar soluções relacionadas aos efeitos de suas próprias atividades. Na GVA, por exemplo, produtos e serviços necessários para eventos já são buscados, sempre que possível, entre negócios presentes nesse ecossistema.

    Um modelo brasileiro com ambição global

    Morando há anos nos Estados Unidos, Gisele também acompanha as diferenças entre os dois mercados. Na sua avaliação, os americanos possuem iniciativas de social business, muitas vezes próximas do universo das organizações sem fins lucrativos, enquanto o Brasil reúne condições particulares para o surgimento de negócios de impacto estruturados como empresas.

    A razão, segundo ela, está justamente nos desafios e na diversidade brasileira. Biodiversidade, diferenças culturais e sociais e problemas que ainda precisam de soluções estimulam modelos criativos capazes de combinar atividade econômica e impacto.

    A ambição agora é levar essa experiência além das fronteiras brasileiras. A Impactos Positivos Global, estruturada nos Estados Unidos, já existe como organização sem fins lucrativos e pode servir de base para uma futura internacionalização da plataforma. A intenção é aperfeiçoar o modelo desenvolvido no Brasil para, depois, adaptá-lo a outros países.

    Para ela, a resposta está cada vez mais ligada ao impacto gerado no presente. Preservar os lugares que queremos conhecer amanhã também depende das escolhas econômicas, ambientais e sociais feitas hoje.

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