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Novo vagão do British Pullman que transforma viagem de trem em teatro

by Luisa Knorst Deotti - 24/06/2026

O British Pullman, trem histórico que circula pela Inglaterra desde a década de 1920, ganhou em maio de 2026 um vagão dedicado a jantares privados e celebrações. Batizado de Celia, o espaço foi criado pelo cineasta Baz Luhrmann e pela figurinista e cenógrafa Catherine Martin, vencedora do Oscar e parceira de longa data do diretor em produções como Moulin Rouge! e O Grande Gatsby. É a primeira vez que a dupla assina um projeto de design para meios de transporte.

Com capacidade para até 12 passageiros, o Celia reúne sala de jantar, lounge, bar e cozinha em um único vagão. Integrado aos itinerários regulares do British Pullman, o vagão parte da estação Victoria, em Londres, rumo a destinos como Oxford, Bath e Canterbury.

Celia: a atriz imaginária que inspira o design

Foto: British Pullmann, a Belmond Train

O projeto não nasceu de um conceito abstrato de luxo, mas de uma narrativa cinematográfica. Luhrmann e Martin construíram o design em torno de uma figura fictícia: Celia, atriz imaginária do West End que, segundo a história criada pelos dois, recebeu um vagão Pullman em 1932 como homenagem por seu papel de Titânia em Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare.

A peça de Shakespeare permanece como referência central. O layout do vagão segue a lógica de atos teatrais e cada ambiente é revelado por meio de cortinas de veludo.

O primeiro compartimento é o bar-lounge, com piso em parquet e paredes com padrões florais. Em seguida, um tapete em tons de rosa, vermelho, verde e amarelo conduz a um sofá de veludo roxo. A sala de jantar é o terceiro ambiente, com painéis de marchetaria que reproduzem paisagens do campo inglês, com a flor amor-perfeito aparecendo em diferentes pontos do vagão. Janelas em estilo naval e um teto de vidro retroiluminado completam o ambiente, junto a cadeiras em verde e bordô e uma mesa de jantar em madeira trabalhada. A flor amor-perfeito foi símbolo de romance proibido na era vitoriana e é um elemento associado a Titânia na peça original.

Artesãos britânicos e fornecedores selecionados a dedo

Foto: British Pullmann, a Belmond Train

Segundo Catherine Martin, a escolha individual das peças foi extremamente intencional. Ela quis que a louça e os objetos de mesa parecessem uma coleção pessoal, reunida ao longo do tempo e não um conjunto padronizado.

A designer coordenou um grupo amplo de colaboradores para a execução do projeto: os artesãos de marchetaria da Dunn & Son, o designer de mobiliário sob medida Bill Cleyndert, o estúdio de vidro Tony Sandles Bespoke Glass, o ateliê de bordados Hand & Lock e o escritório J.K Interiors. A fabricante de porcelana Duchess China desenvolveu as louças do vagão; os talheres são da David Mellor e as taças, da Waterford Crystal.

Uma fragrância exclusiva, desenvolvida especificamente para o Celia, foi selecionada por Luhrmann e Martin para compor a experiência sensorial do ambiente.

Sobre o processo criativo, Martin descreve o projeto como centrado na ideia de descoberta. O conceito sempre girou em torno de desvendar a jornada e a descoberta da paisagem britânica, a partir do interior. Segundo ela, o vagão foi pensado em formato modular para que cada grupo de hóspedes possa moldar sua própria experiência dentro do universo criado pelos designers.

Experiência a bordo

Foto: British Pullmann, a Belmond Train

A reserva do Celia inclui acesso a um consultor de experiências, responsável por alinhar com antecedência o menu, a seleção de vinhos e o roteiro de passeios em terra. No dia da viagem, os hóspedes recebem traslado privativo de qualquer hotel da Grande Londres até a estação Victoria, onde embarcam direto no vagão.

A refeição segue formato de três tempos, com quatro opções para cada etapa — entrada, prato principal e sobremesa — definidas previamente. O menu tem base na cozinha inglesa clássica, com pratos como Beef Wellington e parfait de fígado de frango, reinterpretados conforme as preferências de cada grupo.

A carta de coquetéis é assinada por Monica Berg, cofundadora do bar londrino Tayer + Elementary, recorrentemente citado entre os cinco melhores do mundo. Entre as criações está um ponche servido como boas-vindas a bordo, além de opções sem álcool. Hóspedes também podem levar suas próprias garrafas para compor o bar do vagão durante a viagem.

Os passeios em terra variam conforme o itinerário e incluem acesso a museus, residências históricas e endereços que normalmente não fazem parte de roteiros turísticos convencionais, sempre com guias particulares.

Um episódio novo para um trem centenário

Foto: British Pullmann, a Belmond Train

Gary Franklin, vice-presidente de trens e cruzeiros da Belmond, descreve a chegada do Celia como o início de um novo formato de hospitalidade dentro do British Pullman. Não apenas mais uma opção de vagão, mas uma proposta de experiência gastronômica privada que também se conecta à vida cultural de Londres.

Os preços para reservar o vagão começam em £ 15 mil, valor que inclui o traslado dentro da Grande Londres. O British Pullman opera de fevereiro a dezembro, com dez vagões das décadas de 1920 e 1930, entre eles o Cygnus, projetado pelo cineasta Wes Anderson. Trata-se de mais um exemplo da aproximação do trem histórico com nomes do audiovisual contemporâneo, que repensam a viagem como experiência cultural.

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