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    Uruguai lidera projeto de turismo regenerativo e quer se tornar referência para o Mercosul

    by Emilena Gonçalves - 02/07/2026

    Durante décadas, o turismo foi medido pelo número de visitantes, pela ocupação hoteleira e pelo impacto econômico gerado nos destinos. Agora, uma nova pergunta começa a ganhar espaço no setor: o turismo pode deixar os lugares melhores do que os encontrou?

    É justamente essa a proposta do turismo regenerativo, conceito que começa a ganhar força em diferentes partes do mundo e que coloca comunidades, cultura e meio ambiente no centro da experiência turística.

    Na América do Sul, o Uruguai pretende assumir um papel de protagonismo nessa transformação. Em parceria com a ONU Turismo, o país foi escolhido para liderar um projeto-piloto de formação em turismo regenerativo voltado aos países do Mercosul, iniciativa que deverá criar metodologias, desenvolver ferramentas e capacitar profissionais para transformar a atividade turística em um agente efetivo de desenvolvimento dos territórios.

    Preservar e melhorar os destinos

    Punta del Este

    Punta del Este / Foto: Divulgação

    Ainda que muitas vezes seja associado ao turismo sustentável, o turismo regenerativo propõe uma mudança importante de perspectiva.

    Enquanto a sustentabilidade busca reduzir ou compensar impactos negativos da atividade turística, a regeneração vai além: a proposta é gerar impactos positivos e duradouros para as comunidades, os ecossistemas e as economias locais.

    Efetivamente, Isso significa criar experiências que valorizem a cultura local, fortaleçam pequenos empreendedores, preservem tradições, incentivem a conservação ambiental e contribuam para melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem nos destinos visitados.

    Para o diretor nacional de Turismo do Uruguai, Cristian Pos, trata-se de uma mudança de paradigma que já começa a influenciar o comportamento dos viajantes e as decisões da indústria turística em todo o mundo. “Não se trata apenas de minimizar impactos, mas de gerar impactos positivos, fortalecendo comunidades, ecossistemas e economias locais. Esse círculo virtuoso melhora a oferta turística e atrai uma demanda mais consciente e de maior valor”, afirma.

    Segundo ele, o turismo regenerativo não representa apenas uma tendência passageira, mas uma nova forma de conceber e gerir os destinos turísticos.

    O Uruguai como laboratório de uma nova forma de viajar

    Para o Uruguai, a escolha como projeto-piloto da ONU Turismo representa uma oportunidade estratégica de reforçar seu posicionamento internacional como um destino boutique, diferenciado e alinhado às novas demandas do mercado global. “O turismo regenerativo coloca o foco no valor intrínseco do território: em como nossa identidade cultural, ambiental e social não apenas configura a experiência turística, mas também é potencializada e aprimorada por meio dela”, explica Cristian Pos.

    De acordo com o diretor, o país reúne características que favorecem esse processo, como uma escala territorial administrável, uma identidade cultural consolidada e experiências locais que já incorporam elementos da regeneração, ainda que muitas vezes sem utilizar essa nomenclatura.

    Ao mesmo tempo, ele reconhece os desafios envolvidos. “Existem pressões em sentido contrário, especialmente relacionadas ao imediatismo e à especulação imobiliária. Porém, não podemos ficar de braços cruzados. Por isso, estamos liderando esta iniciativa”, afirma.

    Como o projeto será desenvolvido

    A primeira fase do projeto será dedicada à formação e sensibilização de atores estratégicos do ecossistema turístico uruguaio, incluindo representantes do setor público, universidades, associações empresariais e organizações ligadas ao desenvolvimento territorial.

    Essa etapa inicial contará com atividades virtuais de alcance regional, envolvendo países do Mercosul e permitindo que os aprendizados comecem a ser compartilhados desde o início do processo.

    Posteriormente, o projeto avançará para uma fase territorial, com a realização de seis oficinas presenciais em diferentes regiões do Uruguai. O objetivo será adaptar os conceitos do turismo regenerativo às características e necessidades de cada território, incentivando a construção coletiva de soluções locais.

    Segundo Cristian Pos, a iniciativa não parte de uma seleção prévia de destinos específicos, mas pretende criar condições para que a abordagem possa ser aplicada em escala nacional.

    Após essa etapa, será realizada uma avaliação para identificar os territórios com maior potencial de desenvolvimento e engajamento, definindo os próximos passos para aprofundar a implementação do modelo.

    O que o Brasil pode aprender com a experiência uruguaia?

    Cabo Polonio no Uruguai

    Cabo Polonio no Uruguai / Foto: Ministério do Turismo do Uruguai

     

    Embora o Uruguai seja o laboratório inicial, o projeto nasce com vocação regional.

    A iniciativa foi construída em conjunto com o Escritório Regional para as Américas da ONU Turismo, sediado no Rio de Janeiro, e integra os trabalhos da Reunião Especializada em Turismo do Mercosul.

    Por isso, parte da formação terá alcance regional e contará com a participação de representantes de diferentes países da América do Sul. Além disso, os materiais, metodologias e aprendizados produzidos ao longo do projeto ficarão disponíveis para futuras aplicações em outros destinos da região.

    Para o Brasil, que reúne uma das maiores diversidades naturais, culturais e comunitárias do mundo, a iniciativa pode representar uma oportunidade importante para o desenvolvimento de novos modelos turísticos em áreas rurais, destinos de natureza, comunidades tradicionais e pequenos municípios.

    “O projeto foi concebido para gerar replicabilidade. Os aprendizados desenvolvidos no Uruguai poderão ser utilizados por outros países da região, incluindo o Brasil”, destaca o diretor nacional de Turismo.

    O futuro do turismo pode passar pelo Mercosul

    Os resultados da iniciativa ainda levarão tempo para aparecer. O próprio governo uruguaio reconhece que não existe um cronograma rígido para a consolidação do país como referência internacional em turismo regenerativo.

    Para Cristian Pos, o sucesso dependerá principalmente da capacidade de articulação entre governos, iniciativa privada, universidades e comunidades locais. “O verdadeiro diferencial estará na capacidade de articular todo o ecossistema turístico em torno de uma visão compartilhada”, afirma.

    Se o processo avançar com consistência, o Uruguai acredita que poderá criar, nos próximos anos, exemplos concretos capazes de inspirar outros destinos da América do Sul e posicionar o país como referência internacional no tema.

    Talvez seja cedo para afirmar que o turismo regenerativo será o futuro da indústria de viagens. Mas uma coisa parece cada vez mais clara: os viajantes estão começando a procurar experiências que não apenas respeitem os lugares visitados, mas que também contribuam para fortalecê-los.

    E o Uruguai quer estar entre os primeiros a mostrar como isso pode funcionar na prática.

    Author

    • Emilena Gonçalves

      Formada em Jornalismo, Emilena é podcaster e criadora do Relatos & Roteiros, projeto multiplataforma dedicado a viagens e ao nomadismo. Na SOLA, atua como colunista, com foco em experiências fora do óbvio e em viagens pelo Brasil e América do Sul.