A arquitetura pode fazer com que a chegada ao hotel seja também a chegada ao destino. Isso acontece quando o projeto reconhece o entorno e permite que o endereço influencie a forma, os materiais e a atmosfera dos espaços.
Nos quatro hotéis desta seleção, essa relação não depende de reproduções óbvias da cultura local. Cada propriedade encontrou uma maneira própria de pertencer ao lugar que ocupa.
O Vale do Uco refletido no vidro

Parede envidraçada do Casa de Uco Vineyards & Wine Resort
No município de Tunuyán, na província argentina de Mendoza, o Casa de Uco Vineyards & Wine Resort ocupa uma propriedade de 320 hectares em meio aos vinhedos do Vale do Uco. O endereço fica no caminho para o Manzano Histórico, aos pés da Cordilheira dos Andes, em uma das regiões vinícolas mais conhecidas da Argentina.
Nesse cenário aberto, o arquiteto argentino Alberto Tonconogy evitou repetir a mesma solução ao redor de todo o edifício. As quatro fachadas foram desenhadas de acordo com a incidência solar, as condições climáticas e a vista disponível em cada direção.
A face voltada para o sul concentra grandes painéis de vidro. Como a fachada recebe menos luz solar direta, a solução ajuda no controle da temperatura sem interromper a visão dos Andes. Vista de fora, a superfície se transforma em um espelho para os vinhedos, as montanhas e as mudanças de luminosidade ao longo do dia.
Pedra, madeira e concreto aparente dão peso à construção, enquanto o vidro amplia a sensação de abertura. Na base do edifício, uma adega subterrânea abriga rótulos da região e leva para dentro do projeto a cultura do vinho que caracteriza o Vale do Uco.
O bosque inspira os interiores do Termas Chillán

Decor em madeira do Termas Chillan
O Termas Chillán fica na comuna de Pinto, na Região de Ñuble, a cerca de uma hora e meia de carro da cidade de Chillán. O trajeto segue pela Ruta N-55 e sobe em direção ao centro de montanha Nevados de Chillán, conhecido pelas pistas de esqui, pelas águas termais de origem vulcânica e pelas florestas de lenga, que recebem neve durante o inverno.
É nesse ambiente de montanha que o projeto de Rodrigo Caldera se insere. As vidraças de grande formato mantêm o bosque visível nos quartos e nas áreas comuns, enquanto a madeira utilizada nas estruturas aproxima o edifício da vegetação que o cerca.
Nos interiores, Ricardo Cuevas buscou referências no próprio terreno. Pedras, fibras naturais e diferentes tonalidades de madeira aparecem no mobiliário e nos revestimentos. A paleta de marrons e beges acompanha as cores dos troncos e do solo, criando uma passagem visual mais suave do exterior para os ambientes internos.
A solução acompanha as transformações da paisagem ao longo do ano. No inverno, a madeira contrasta com a neve do lado de fora. Nos meses mais quentes, os interiores acompanham o verde que volta a dominar a paisagem da Cordilheira.
A nova vida de um palacete no Porto

Vila Foz Hotel & Spa: quarto do palacete
Na cidade do Porto, em Portugal, a Foz do Douro marca o encontro do rio com o Oceano Atlântico. Antigo porto de pesca, a região tornou-se área de veraneio no século XIX, quando famílias abastadas construíram palacetes próximos ao mar.
Uma dessas construções abriga hoje o Vila Foz Hotel & Spa, instalado na Avenida de Montevideu, em frente ao Atlântico. O trabalho de adaptação ficou a cargo do Gabinete Miguel Cardoso Arquitecto, enquanto Nini Andrade Silva assumiu o design de interiores.
Molduras, ornamentos e o pé-direito elevado preservam a leitura do imóvel original. O mobiliário, a iluminação e as linhas mais simples adotadas nos novos ambientes indicam as intervenções recentes sem transformar o palacete em uma reprodução cenográfica do período original.
Para ampliar o hotel, um segundo edifício foi construído com concreto, gesso e vidro. Uma passagem interna conduz gradualmente do palacete para essa ala mais atual. O projeto ainda precisou se adaptar a um metrosídero centenário protegido no jardim, levando a construção a se desenvolver ao redor da árvore.
Voltadas para o oceano, as janelas mantêm a luz e o horizonte do Atlântico presentes nos quartos e nas áreas comuns. Dessa forma, a localização à beira-mar continua perceptível mesmo dentro do palacete.
Um retrofit que foge dos tons neutros

Retrofit da Pousada Morena
A cerca de 1h20 de voo de Recife, a Pousada Morena fica em uma área central de Fernando de Noronha, próxima à Vila dos Remédios e à Praia da Conceição. A propriedade reúne 23 acomodações distribuídas em cinco categorias e tem vista para o Morro do Pico, uma das principais referências visuais da ilha.
Assinado pela arquiteta Milena Rocha Holanda, o retrofit abrange a recepção, o restaurante, os quartos e os bangalôs. O projeto foi desenvolvido para dar mais personalidade aos espaços e se afastar da neutralidade comum em parte da hotelaria internacional.
Cores, estampas e superfícies texturizadas aparecem no mobiliário e nos revestimentos. A brasilidade orienta essas escolhas sem transformar Fernando de Noronha em um tema de decoração ou reproduzir de forma literal os elementos da paisagem.
Essa linguagem se estende à curadoria de livros, aos aromas, às amenidades e a outros detalhes presentes na rotina da hospedagem.










