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Moda na Geórgia: como o país transformou tradição em um dos cenários mais criativos da moda

by Luisa Knorst Deotti - 24/07/2026

Em Tbilisi, uma antiga fábrica soviética de costura abriga ateliês, galerias e cafés. Na Cidade Velha, boutiques de designers georgianos dividem espaço com pequenas lojas familiares que preservam técnicas artesanais transmitidas há gerações. Em um país de cerca de 3,7 milhões de habitantes, entre o Cáucaso e o Mar Negro, a moda se tornou uma das formas mais interessantes de compreender a identidade local.

Muito antes de estilistas georgianos conquistarem espaço nas passarelas internacionais, o país já construía uma identidade própria por meio dos tecidos, bordados e técnicas artesanais transmitidas entre gerações. Hoje, tradição e criação contemporânea caminham lado a lado, fazendo da Geórgia um dos destinos mais interessantes para quem viaja em busca de design, cultura e autenticidade.

Antes da moda contemporânea

Foto: Unsplash

Muito antes de nomes como Demna, David Koma ou Anouki conquistarem espaço nas semanas de moda internacionais, o vestuário georgiano já carregava forte significado cultural.

Entre os homens, a chokha, casaco ajustado ao corpo com cartucheiras ornamentais, era usada com a papakha, o tradicional chapéu de lã, e o khanjali, uma adaga presa à cintura. Já as mulheres vestiam o kartuli samoseli e o tkbili kaba, peças de silhueta longa presentes em celebrações religiosas, casamentos e festividades populares.

Essas roupas representavam posição social, região de origem e tradições familiares. Muitos de seus elementos continuam inspirando coleções contemporâneas produzidas no país.

A história da moda georgiana acompanha a própria geografia. Nas regiões montanhosas do Cáucaso, o feltro continua sendo produzido artesanalmente, técnica utilizada há séculos na confecção de mantos, chapéus e tapetes. Já nas cidades atravessadas pela antiga Rota da Seda, tecidos nobres, bordados em fios metálicos e sedas orientais passaram a integrar o vestuário da nobreza.

Esse encontro entre tradição local e influências vindas do Oriente ainda aparece no trabalho de marcas como Tamuna Ingorokva e Samoseli Pirveli, que reinterpretam formas e bordados históricos sem transformá-los em figurino.

Essa herança cultural ganhou novos contornos nas últimas décadas. Uma geração de criadores passou a reinterpretar referências históricas com linguagem contemporânea, levando a estética georgiana para as principais capitais da moda.

Os estilistas que colocaram a Geórgia no mapa da moda

Foto: Administração Presidencial

A projeção internacional da moda georgiana ganhou força na última década, impulsionada por designers que transformaram referências culturais do país em coleções autorais. Embora cada um siga uma linguagem própria, todos compartilham uma característica em comum: reinterpretam a identidade georgiana sem recorrer à reprodução literal do passado.

Demna Gvasalia talvez seja o exemplo mais conhecido. Nascido na Geórgia, deixou o país ainda criança durante a guerra na Abecásia e construiu uma carreira que passou pela Vetements, pela Balenciaga e, posteriormente, pela Gucci. Em 2021, recebeu da então presidente Salome Zurabishvili a Ordem da Honra por sua contribuição para a projeção internacional da Geórgia.

David Koma ficou conhecido pelas silhuetas arquitetônicas e pelo trabalho preciso de alfaiataria. Anouki Areshidze, fundadora da ANOUKI, tornou-se uma das principais referências da moda feminina georgiana ao combinar volumes, bordados e cores intensas. George Keburia ganhou reconhecimento pelos óculos de design autoral e pelas coleções de linguagem experimental. Tako Mekvabidze explora bordados e modelagens delicadas, enquanto as irmãs Nina e Gvantsa Macharashvili transformaram a Mach & Mach em uma das marcas de acessórios mais desejadas da atualidade, reconhecida pelos sapatos adornados com cristais usados por artistas como Beyoncé, Dua Lipa e Kylie Jenner.

 

Tbilisi como passarela

Foto: Mercedes-Benz Fashion Week Tbilisi

O crescimento dessa cena criativa também transformou Tbilisi em um dos principais centros culturais do Cáucaso. A cidade passou a atrair viajantes interessados em moda, arquitetura e design, consolidando-se como um destino onde a criatividade faz parte do cotidiano.

Essa efervescência encontra sua principal vitrine na Mercedes-Benz Fashion Week Tbilisi.

Desde 2009, o evento ajudou a colocar a capital georgiana no calendário internacional da moda ao privilegiar designers independentes e ocupar espaços pouco convencionais da cidade. Em vez dos tradicionais pavilhões de exposições, os desfiles acontecem em antigas escolas soviéticas, edifícios industriais restaurados, galerias e construções históricas.

Mais do que um cenário para apresentações, esses espaços refletem a própria identidade de Tbilisi, onde arquitetura, memória e moda se encontram para contar a história de uma cidade em constante transformação.

Um roteiro para descobrir a moda georgiana

Foto: Aleksandre Akhalkatsishvili

Percorrer Tbilisi pela moda é também conhecer diferentes momentos da história do país, e uma forma de entender como arquitetura, memória e criatividade convivem na capital georgiana.

A Fabrika, instalada em uma antiga fábrica soviética de costura, reúne ateliês, lojas de designers independentes, cafés e espaços criativos em um dos endereços mais dinâmicos da cidade.

Na Shardeni Street, no coração da Cidade Velha, boutiques de moda contemporânea convivem com lojas de artesanato tradicional, revelando como o antigo e o novo fazem parte da mesma paisagem urbana.

A Rustaveli Avenue concentra marcas internacionais e boutiques de estilistas georgianos, enquanto concept stores como a Chai Khana e a Chaos oferecem uma seleção criteriosa de roupas, acessórios, objetos de design e produtos produzidos localmente.

Para quem prefere descobrir a cultura georgiana pelos detalhes, o Dry Bridge Market reúne antiguidades, obras de arte, joias e peças artesanais, enquanto o Dezerter Bazaar, conhecido principalmente pela gastronomia, também revela o trabalho de pequenos produtores e artesãos.

Vale incluir ainda as lojas do Georgian National Museum e do Tbilisi History Museum, onde livros, objetos e peças produzidas por artesãos locais ampliam a experiência para além das exposições.

Comprar também preserva a tradição

Foto: ANOUKI

Na Geórgia, moda e patrimônio caminham lado a lado. Um casaco de feltro produzido manualmente, um bordado inspirado nos desenhos da antiga Rota da Seda ou um acessório criado por uma marca independente representam uma cadeia produtiva que continua valorizando técnicas transmitidas entre gerações.

Para o viajante, explorar a moda georgiana significa levar na bagagem mais do que uma peça de design. É descobrir a história do país por meio dos tecidos, das oficinas e das pessoas que mantêm vivo um dos ofícios mais antigos da região do Cáucaso, uma tradição que continua sendo reinventada nas ruas de Tbilisi e que ajuda a explicar por que a moda se tornou uma das expressões culturais mais autênticas da Geórgia.

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