Em 1991, um casal comprou uma estação ferroviária vitoriana desativada em Alnwick, no norte da Inglaterra, e abriu, entre as plataformas abandonadas, uma das maiores livrarias de segunda mão da Europa. A Barter Books ocupa hoje 32.000 metros quadrados do edifício projetado em 1887 pelo arquiteto William Bell. A construção foi em escala monumental para uma cidade pequena porque precisava impressionar a realeza que visitava o castelo vizinho dos Duques de Northumberland. A linha foi encerrada em 1968. Os trens não voltaram, mas os livros chegaram.
Em Buenos Aires, um teatro de 1919 teve uma trajetória mais longa até chegar aos livros. O Grand Splendid foi projetado pelo arquiteto Fernando Manzone para o empresário Max Glücksmann, um imigrante austríaco que apostou que palco, cinema e rádio podiam coexistir no mesmo endereço. Por décadas ele estava certo. Com a economia argentina em colapso, o edifício quase foi demolido. O Grupo Ilhsa, proprietário da rede de livrarias El Ateneo, salvou o prédio e o converteu em livraria no ano 2000.
Em Veneza, Luigi Frizzo abriu a Libreria Acqua Alta em 2002 num imóvel que lhe disseram ser área de risco de inundação. Os livros ficam expostos em gôndolas e banheiras, protegidos das marés altas que periodicamente invadem a cidade. Virou cartão-postal. A livraria recebe hoje entre 2.000 e 5.000 visitantes por dia.
Um lugar improvável e um acervo acessível. Agora a inspiração chegou ao Sena. O grupo cultural Artflux inaugurou a Nanna, uma péniche littéraire (barcaça literária, em tradução direta) ancorada no Port de Montebello, no 5º arrondissement de Paris, a poucos metros da Catedral de Notre-Dame. Uma embarcação histórica do tipo Freycinet, originalmente projetada para o transporte de mercadorias pelos canais franceses, foi reconvertida em espaço cultural de 200 m² com 7.000 livros de segunda mão, com bar, restaurante e programação cultural semanal.
Quem está por trás da Nanna?

Foto: Nanna
O grupo Artflux foi cofundado em 2017 por Nicolas Laugero Lasserre e Géraud Boursin com uma premissa que se tornaria a espinha dorsal de todos os seus projetos: criar espaços culturais em embarcações ancoradas às margens do Sena e financiá-los sem subvenção pública e sem cobrar ingresso.
O primeiro espaço que colocou esse modelo à prova foi o Fluctuart, inaugurado em 2019 no Pont des Invalides, no 7º arrondissement. Um centro dedicado à arte urbana. O local ocupa 1.000 m² distribuídos em três níveis, incluindo um rooftop de 300 m² com vista para o Sena. As receitas do bar e os eventos é que financiam a programação. O resultado foi um público de 200.000 visitantes por ano.
Veio ainda o Quai de la Photo, centro de arte fotográfica de 700 m² no 13º arrondissement, às margens da Biblioteca François Mitterrand, com exposições gratuitas e ateliês para crianças; depois a Péniche Marcounet e o Son de la Terre, ambos dedicados à programação musical. A Nanna é o sexto estabelecimento do grupo e o primeiro inteiramente voltado à literatura.

Foto: Nanna
Barcaça de carga transformada em biblioteca
A palavra péniche designa em francês uma categoria específica de embarcação fluvial de casco plano, projetada para navegar pelos canais e rios do interior europeu. O modelo Freycinet tem nome próprio: é batizado a partir de Charles de Freycinet, ministro de obras públicas francês que, em 1879, estabeleceu as dimensões padronizadas para as vias navegáveis do país. Durante mais de um século, essas embarcações transportaram carvão, areia, grãos e materiais de construção pelos canais franceses. Com o declínio do transporte fluvial de mercadorias, muitas foram desativadas. A que deu origem à Nanna passou três anos em processo de reabilitação antes de ser ancorada no Port de Montebello.
7.000 livros e uma programação especial
A ideia central é que quem entra para tomar uma bebida pode sair com um livro, gratuitamente. Os 7.000 volumes de segunda mão reunidos para o acervo cobrem clássicos franceses e estrangeiros, policiais, literatura de viagem e filosofia. “Queríamos dar acesso a uma grande biblioteca”, explicou o cofundador Lasserre. “E sobretudo, cada pessoa que vier beber uma taça na Nanna poderá ir embora de graça com um livro.”
O espaço de 200 m² está dividido em dois níveis: a cale, o porão da barcaça, de 100 m², onde fica a biblioteca e funciona o espaço para o clube de leitura e o pont-terrasse, o convés superior de outros 100 m², aberto para o Sena e a fachada de Notre-Dame. A embarcação tem capacidade para 180 pessoas em formato de coquetel e 120 em refeições, com restaurante e bar integrados.
A Nanna não é apenas uma biblioteca com bar. A programação semanal inclui de dois a três encontros por semana em formatos variados. O clube de leitura reúne leitores regularmente para discutir obras do acervo. Os lançamentos de livros e encontros com autores compõem outro eixo. Uma vez por mês, a barcaça sedia um speed dating literário; o formato, originalmente criado para encontros românticos, é adaptado para apresentar leitores com gostos em comum. À noite, grupos musicais e DJs são convidados para as sessões no convés, mantendo a linha dos outros estabelecimentos da Artflux, que sempre combinaram cultura e vida noturna.

Foto: Nanna
O momento em que a Nanna chega
Em 2025, o Centre national du Livre registrou 83 aberturas de livrarias contra 85 fechamentos. Um saldo negativo pela primeira vez desde que esse monitoramento existe. As aberturas caíram 38% em relação a 2024, quando tinham sido 135. As estruturas que fecharam eram majoritariamente recentes: quase metade havia sido criada após 2017 e mais de um terço após 2021.
O modelo da Artflux não é exatamente o de uma livraria independente. Não vende livros novos, não depende do varejo, mas cria um endereço físico para a leitura que se sustenta economicamente.
Foi no Sena que Guillaume Apollinaire situou “Le Pont Mirabeau”, o poema de 1912 que tornou-se uma das obras centrais da poesia francesa moderna. O rio como metáfora do tempo que passa e do amor que não volta. Antes dele, Victor Hugo, Balzac e Baudelaire já haviam feito de Paris e das suas margens o cenário de ficções e versos. Hemingway também escreveu sobre cruzar as pontes do Sena para se sentir menos sozinho.
Como chegar?

Foto: Nanna
A Nanna está ancorada no Port de Montebello, Paris 5º arrondissement, em frente à Catedral de Notre-Dame. O acesso mais direto é pelo metrô linha 4 ou 11, ou então pelo RER B. A barcaça abre todos os dias a partir das 12h, com funcionamento até meia-noite de segunda a quinta e até as 2h nos fins de semana.









